Diocese do Funchal - Ano Pastoral 2018 / 2019 - "Ser Cristão, viver em Missão" Ano Missionário extraordinário: "Todos, tudo e sempre em Missão"

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal na Missa de Quarta-feira de Cinzas 2012

Quaresma, apelo e desafio
à partilha fraterna!
Com a celebração litúrgica de hoje, quarta-feira de Cinzas, a Igreja inicia a sua caminhada quaresmal, tempo especial de graça, de conversão pessoal e comunitária, como preparação para a solene e frutuosa celebração da Páscoa, acontecimento central da nossa fé cristã.
A quaresma é o tempo favorável da escuta da Palavra e do silêncio, da oração e da partilha, que nos conduzem à fonte inesgotável da Vida, na comunhão com Deus e com os outros. O Deus da Vida, sempre presente e atento, precede-nos no encontro com Ele: “Por todos os lados me envolveis e sobre mim pondes a vossa mão”(Sl 138).
A simbologia das cinzas, que marca o sentido deste dia, tem um carácter penitencial, de apelo ao arrependimento e à vida nova de baptizados. À luz da Palavra de Deus, compreender-se-á o significado profundo deste gesto litúrgico: a fragilidade e finitude da vida humana, a urgência da conversão e o preparar-se cada um, espiritualmente, para o encontro pascal com Cristo Ressuscitado...
Conversão do coração
Neste percurso espiritual somos iluminados pela Palavra, que dá novo vigor à nossa vivência quaresmal. Como escreve Bento XVI, “a Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor: o Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele” (Verbum Domini, 24).
Como forte apelo à conversão, dirigido a todo o Povo de Deus, sem excluir ninguém, é significativo o convite do Profeta Joel a uma verdadeira “metanóia”, mudança de vida e de mentalidade. “Convertei-vos a Mim de todo o coração... rasgai os vossos corações e não os vossos vestidos” (2,12-13), escreve o Profeta em nome de Deus. É que a verdadeira conversão toca o mais íntimo de nós próprios, implica “rasgar” o coração, isto é, romper com o mal e o pecado, deixar-se envolver pelo abraço carinhoso do Pai, sempre pronto a amar e a perdoar: “O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo” (v.18).
Na segunda leitura, S. Paulo refere que o amor eterno de Deus salvador manifestou-se, de forma extraordinária, em Cristo Jesus, que, solidário com a humanidade pecadora, assumiu a condição humana e entregou-Se, sem reservas, pela vida do mundo: “A Cristo que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por nosso amor” (2Cor 5,21). E S. Paulo pede aos cristãos da comunidade de Corinto que “pelo amor de Cristo se reconciliem com Deus” (2Cor 5,20). Assim, a salvação acontece também “agora”, neste tempo favorável, que Deus continua a oferecer à Humanidade.
Oração, jejum e esmola
No texto evangélico de S. Mateus, Jesus introduz-nos no dinamismo da autêntica conversão, agradável a Deus. Esta não consiste num conjunto de práticas exteriores, de aparente religiosidade e apenas para dar nas vistas: Jesus não condena as sãs tradições religiosas da esmola, oração e jejum, mas pede que sejam praticadas com pureza de intenção.
Estes gestos de renúncia devem ser realizados sem ostentação, com alegria e humildade, no segredo que só o Pai conhece. Disse Jesus: “Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1). É que a penitência quaresmal tem como finalidade o encontro íntimo e pessoal com o Pai, a reconciliação da própria pessoa, das famílias e da sociedade.
A oração é a linguagem do amor e, mesmo quando é comunitária, realiza e exprime a nossa intimidade com Deus. É espaço privilegiado para nos deixarmos iluminar pela consciência da presença de Cristo, numa verdadeira peregrinação ao próprio coração, isto é, entrando cada um no seu “quarto”, em ordem a uma autêntica renovação de vida.
O jejum não pode limitar-se à abstenção de alimentos, mas envolve toda uma dinâmica interior de desprendimento e domínio de nós próprios, capacitando-nos para enfrentar, superar e vencer as múltiplas tentações da vida, tantas vezes marcada pela indiferença e pelo individualismo.
Quanto à esmola, a Palavra de Deus esclarece-nos sobre o seu valor espiritual, dizendo já no Antigo Testamento: “Quem dá esmola oferece a Deus um sacrifício de louvor” (Sir 35,4). Somos, assim, convidados a partilhar com alegria e amor os dons e os bens de que dispomos, sem esperar recompensa.
Ao serviço do Amor
Todos temos experiência de como a alegria interior constitui a melhor recompensa para a nossa generosidade e partilha, para a nossa atenção e serviço de amor aos irmãos e irmãs que mais sofrem. De facto, somos felizes na medida em que partilhamos a vida e os dons que Deus nos concedeu.
Face à actual crise económica e civilizacional profunda, Bento XVI centra a sua Mensagem para a Quaresma 2012 no amor fraterno, propondo e desenvolvendo o tema: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (Heb 10,24). Diz o Papa: “Sempre devemos ser capazes de ter misericórdia por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre”.
De facto, com frequência nos chegam notícias de verdadeiros dramas humanos: uma crescente procura de cantinas sociais; o abandono e até mortes de idosos em solidão nas suas próprias casas; pessoas que vivem e dormem nas ruas, sem qualquer conforto e aconchego humano. E tantos outros casos e situações semelhantes, talvez menos visíveis, mas que não devem dispensar a maior atenção e cuidado, por parte das respectivas famílias, dos vizinhos e das comunidades a que se encontram mais ligados.
O Santo Padre, perante os graves problemas sociais, que hoje preocupam a Igreja e a sociedade, convida-nos a estarmos atentos uns aos outros, a não nos mostrarmos alheios e indiferentes ao destino dos irmãos, a prestarmos “atenção ao bem do outro e a todo o seu bem”. E acrescenta: “Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão”.
Bento XVI refere-se ao perigo de termos um coração endurecido por uma espécie de “anestesia espiritual”, que nos torna cegos aos sofrimentos alheios, e alerta-nos para a empatia e comunhão fraterna, que devem existir entre todos. Diz o Papa: “Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação”. Um coração que olha e vê é um coração sensível às necessidades materiais e espirituais dos irmãos e irmãs.
Renúncia quaresmal 2012
É neste espírito de solidariedade e partilha fraterna, que pensamos nas situações de carência mais próximas de nós, mas não esquecemos tantas outras necessidades materiais e espirituais, em especial aquelas com que se debatem os nossos missionários, na sua acção evangelizadora.
Destinamos, por isso, a tradicional Renúncia da Quaresma deste ano de 2012, em parte para potenciar o Fundo Social Diocesano, cujos objectivos são bem conhecidos, e em parte para a construção de uma obra social de grande importância, numa zona muito pobre da Paróquia da Imaculada Conceição, Diocese do Lubango, em Angola. Trata-se de um complexo com Lar para idosos, Lar para crianças e Escola para três ciclos de ensino, uma iniciativa e projecto da Comunidade das Irmãs Vitorianas, ali existente, naquela Zona Pastoral do Coração de Maria.
As ofertas desta Renúncia Quaresmal serão recolhidas em todas as igrejas e capelas, conforme é costume, nos ofertórios das Missas de Sábado e Domingo de Ramos, ou seja, nos próximos dias 31 de Março e 1 de Abril. Como sempre, a participação é muito livre, segundo as possibilidades e a consciência pessoal dos fiéis, na certeza de que Deus não deixará sem recompensa qualquer gesto de atenção e partilha fraterna.
E agora, irmãos, sob o olhar compassivo de Maria, que nos convida a escutar o Senhor, a partilhar e a amar, caminhemos jubilosamente em direcção à Páscoa.
 Funchal, 22 de Fevereiro de 2012
                                                                              † António Carrilho, Bispo do Funchal

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